Autor: Katze

  • Disputationes et Dissensus

    Como Animais Gregários, não podemos fugir ao fato que ainda somos Indivíduos dotados de autoidentificação e vontade própria e, cientes da própria finitude, dos próprios interesses e também da própria linhagem e tudo o que isto implica é natural que surjam Disputas e Divergências.

    Em um ambiente onde a regra é a Imposição da Força, basta exerce-la para resolver qualquer disputa e assim será!
    Alias, nada seria mais direto e objetivo que o uso da Força pura e simples, mas ela por si só não é capaz de manter a Coesão entre os Indivíduos envolvidos pois enfraquece um dos principais motivos que fomenta a formação de um agrupamento que é a preservação da integridade física dos envolvidos.

    Disputas pacíficas

    Tratando-se de ambientes desenvolvidos e mantidos de forma Voluntária, a Coesão tende a garantir que, ao menos a maioria dos envolvidos e na maior parte das vezes, tenha alguma inclinação para buscar a resolução de Disputas e Divergências de forma pacífica, ou seja, sem Imposição ou uso da Força.

    Quanto mais um grupo for capaz de resolver suas questões de forma pacífica, maior tende a ser a Confiança e respectiva Coesão o que permite também maiores Compromissos e Deveres entre os membros daquele grupo, e com isso aumentam todas as vantagens que estas capacidades trazem consigo.

    No entanto, resolver Disputas e Divergências de forma pacífica nem sempre é uma ação simples exigindo idealmente a capacidade de avaliar situações complexas para propor soluções adequadas de forma a apaziguar os lados envolvidos.

    Sabendo que tal habilidade faz parte da manutenção das relações entre os envolvidos de um grupo Voluntário é necessário que alguns membros estejam ao menos mais preparados para serem consultados quando tais situações venham a ocorrer. A estes chamados de Juízes.

  • Greges

    O ser Humano é um Animal Gregário, ou seja, que vive em grupos com outros semelhantes. Isto pode ser assim pelo benefício que este tipo de vínculo traz para cada Indivíduo aumentando as chances de manutenção da espécie como um todo.

    Visto que este tipo de vínculo dilui os Custos e Riscos da vida selvagem e cobram uma parcela significativamente pequena em Confiança, Compromissos e Deveres foi natural que este modo de vida perpetuou-se para nós assim como para várias outras espécies sendo que só na nossa – até onde se sabe – existe a capacidade de formar vínculos objetivamente Voluntários e de definições Explícitas com relação aos Compromissos e Deveres de cada qual.

    Coesão

    Via de regra, quanto maior for a Confiança que os Indivíduos de um Grupo tem uns nos outros, maior também é a Coesão entre eles.

    Uma grande Coesão permite administrar formas complexas de divisão de tarefas e especializações de habilidades pois devido a esta grande Confiança um indivíduo pode nunca se expor aos perigos de uma caçada e ainda assim sempre ter o que comer pois dedicou-se a executar uma outra tarefa que tinha algum valor para o Grupo ao ponto de ser considerada uma contribuição equiparável.

    Seguindo neste sentido percebemos que todas habilidades distantes da mera sobrevivência só poderiam surgir em um arranjo deste tipo pois só assim que diversos Indivíduos podem obter tempo de qualidade para experimentar e testar experiências até o ponto de extrair delas alguma informação ou habilidade valiosa para si e para os demais.

    Visto que as vantagens de manter a Coesão são imensas para todos os envolvidos, sua preservação torna-se uma condição vital pois se um Grupo de Indivíduos especializados se desfaz, cada um perde não apenas o apoio dos demais, mas também diminui muito a própria chance de sobrevivência.

  • Obligatio et Officium

    Compromissos

    Também chamados de acordos, pactos, promessa e outros nomes, Compromissos são obrigações assumidas voluntariamente entre os envolvidos que envolvem expectativas mutuas da execução das obrigações de cada lado participante de forma que todos fiquem satisfeitos frente ao que foi acordado.

    Trata-se de um tipo de relação que só pode ser firmada se existir previamente algum nível de Confiança entre os envolvidos e o reconhecimento da capacidade de consentimento dos mesmos além da possibilidade que eles realmente possam executar sua parte no acordo.

    Este é um tipo especial de vínculo pois ele escapa totalmente do domínio da Força. Um Compromisso Imposto é apenas uma Imposição, ou seja, trata-se de um outro nome para o uso da Força e nada além.

    Por terem por base a Confiança, este tipo de vínculo é naturalmente mais valioso para aqueles que desejam obter vantagens nas ações que exigem cooperação.

    Deveres

    Todo Compromisso gera um ou mais Deveres aos envolvidos. Tais Deveres são as contrapartes mutuamente acordadas de ações a serem realizadas e que constituem a finalidade para a qual tal Compromisso foi proposto.

    O cumprimento dos Deveres tal qual foram definidos tendem a fortalecer a Confiança empenhada entre os envolvidos de um Compromisso. Ao mesmo tempo, o descumprimento dos Deveres causa o efeito inverso.

    Assim como o uso da Força não é capaz de gerar um Compromisso real, ela também não é capaz de gerar um Dever real. Em ambos os casos trata-se meramente de Imposição pois não se baseia em Confiança e nem causa em todas as partes envolvidas um Dever que corresponda aos anseios e necessidades dos envolvidos.

    Explícitos, Tácitos e Implícitos

    Os compromissos Explícitos são aqueles que exigem alguma forma de declaração clara — seja por palavras, gestos ou escrita — para que todas as partes conheçam os termos e reconheçam seus respectivos Deveres, podendo assim assumi-los ou recusá-los de forma igualmente explícita.

    Os compromissos Tácitos não são formalmente declarados, mas se consolidam por meio de práticas, costumes ou comportamentos que geralmente antecedem os próprios compromissados que entram em uma cadeia de confiança previamente firmada.

    Já os compromissos Implícitos são aqueles sugeridos ou subentendidos dentro de um contexto delimitado. Decorrem da interpretação de sinais, palavras ou situações que indicam algum tipo de Dever, mesmo sem formulação direta.


    Como todo Compromisso real depende da vontade expressa e desejo dos participantes para ser firmado, apenas a forma Explícita descrita acima pode ser adequadamente exigida que seja ou que fosse cumprida.

    Isto não significa que os demais sejam inválidos, mas sim que permitem múltiplas interpretações dos termos assumidos, podendo facilmente levar a desdobramentos até contrários ao esperado, sem que se possa de maneira razoável afirmar que houve má intenção.

    Visto que todo Compromisso deve poder ser negado e os tipos Tácitos ou Implícitos podem colocar alguns participantes em situação de risco ao prever erroneamente que os demais irão cumprir suas partes faz-se necessário que de alguma forma eles passem a ser codificados como se fossem Explícitos. Esta é a melhor forma pela qual os elos de Confiança podem ser corretamente avaliados.


    Cooperação Voluntária

    Apenas a partir do entendimento dos conceitos de Confiança, Compromissos e Deveres podemos começar a falar de Cooperação Voluntária ou simplesmente Voluntarismo.

    Tal expressão designa o tipo de relação de troca que só pode ocorrer entre indivíduos dotados de autoidentificação e vontade própria e que também são capazes de uma comunicação minimamente eficaz para traçar definições e limites que, uma vez expressos podem serem aceitos ou negados e, se aceitos poderão ser posteriormente aferidos.

    O uso da Força nunca faz parte deste tipo de vínculo e pode inclusive ser motivação de destrato caso venha a ser usada.

  • Involuntaria cooperatio

    Como dito anteriormente, o uso da Força em conjunto com outros indivíduos aumenta o poder geral dos envolvidos. É natural portando, que tal arranjo seja observado de forma comum no reino animal assim como é comum que alguns indivíduos dotados de autoidentificação e vontade própria desejem obter as vantagens da cooperação sem querer pagar os custos e riscos envolvidos e para isso tentam exercer a Força contra os demais a fim de submete-los a sua vontade. A esta ação chamamos de Cooperação Involuntária ou simplesmente Imposição.


    Note que, se um indivíduo for muito mais forte que a maioria dos demais, tendo assim uma vantagem muito grande sobre eles, poderá facilmente submete-los a sua vontade visto que seu custo e risco são baixos e seu ganho é alto. Do ponto de vista estritamente Animal, é esperado que em tal condição qualquer um que possa, exerça tal vantagem sobre os demais.

    No entanto esta não é a realidade de nossa espécie onde, entre indivíduos saudáveis em uma população, mesmo o mais fraco teria condições de, com apenas uma ação astuta neutralizar alguém que fosse muito mais forte. Esta é uma possibilidade real que não pode ser ignorada e quem deseja exercer a Força sobre os demais sabe que é tão vulnerável a agressões quanto qualquer outro.


    No que tange a nossa espécie, o custo e o risco de exercer Força sobre os outros estando só é muito alto, portanto é uma ação incomum e cada vez mais difícil de realizar conforme os grupos crescem.

    No entanto, o que costuma ocorrer é que, por correlação de intenções, indivíduos que desejam exercer a Força sobre os demais podem se unir e assim tentar subjugar outros a suas vontades forçando-os a cooperarem com seus intentos. No entanto, eles próprios, que exercem a Força não escapam de que, entre si, precisam estabelecer não só Confiança mas Compromissos e Deveres além de algum nível de Voluntarismo para que tal emprego da Força funcione contra os demais. Fica claro assim que, mesmo aqueles que utilizam-se da Força para impor sua vontade, uma vez que se unem a outros, demonstram que não só são capazes de compreender os demais temas aqui abordados como não são alheios aos benefícios que os mesmos trazem para os envolvidos.

  • Fiducia

    Em várias espécies surgiu a capacidade de organização em grupos como forma de unir forças. A estratégia se mostrou vantajosa para os indivíduos que fazem parte deste tipo de grupamento e com os seres humanos não foi diferente.

    Para indivíduos da nossa espécie, a vida solitária tem um alto custo e risco. Foi necessário para nós, que não somos eximios fisicamente em nada de especial, aprender a exercer a Força em conjunto. E ao longo dos milenios aperfeiçoamos a capacidade de cooperação que nos permitiu sobreviver e uma das fundações desta cooperação é o que podemos chamar de Confiança.

    Tal Confiança envolve, entre outras, a capacidade de ter crenças injustificadas, neste caso, de que os envolvidos em tal teia irão corresponder a um determinado grupo de ações mesmo frente a possibilidade de obter vantagem unicamente para si mesmos.

    No fundo sabemos da realidade fática de que não existem garantias e que toda Confiança dada é uma crença injustificada mas, ao mesmo tempo, sabemos que é por demais custoso viver isolados devido a desconfiança total. Embora o isolamento total seja uma possibilidade dos indivíduos, visto que eles tem autoidentificação e vontade própria, na nossa espécie, até onde se sabe, isto significa também a extinção daquela linhagem individual.

    No fim, seja pelo motivo que for, a Confiança que aprendemos a exercer tornou-se uma das peças fundamentais para mitigar o custo e o risco de sobreviver e nos permitiu, indiretamente, criar um cenário onde a tranquilidade do ambiente nos deu tempo para que pudéssemos nos ocupar de outras atividades menos estressantes e mais enriquecedoras tanto para os indivíduos quanto para os grupos envolvidos.

  • Sumptus et periculo

    O custo

    Em termos fundamentais todo ser vivo é um sistema orgânico que, para se manter, depende de alguma forma de obtenção de energia e tal energia não surge espontaneamente portanto precisa ser encontrada e capturada.

    Muitas das plantas que conhecemos realizam fotossíntese além de obterem minerais do solo já os Animais, por demandarem muito mais energia precisam de fontes mais fartas e são justamente as plantas e demais animais que suprem tais necessidades portanto a caça e a coleta no caso dos Animais é a regra à qual todos estes estão submetidos apenas por existirem da forma como são.

    O risco

    Faz parte da natureza de todo ser vivo a característica de tentar manter-se vivo e isto é o que impulsiona a todos em busca de alimentação. Mas toda ação neste sentido está envolta em um risco inerente à mesma.

    Uma vez que todos precisam comer, mas ninguém quer ser comido, as presas aprendem com o tempo a se defender e os caçadores podem vir a se machucar. Agressões ou ferimentos que parecem banais a nossos olhos humanos mal acostumados podem tornarem-se inflamações ou infecções incapacitantes e mortais. Por toda a vida Animal existe o dia da Caça e o dia do Caçador e este equilíbrio faz parte do Jogo da Vida.

    Sabendo do risco mesmo em nível instintivo, visto que dificilmente um caçador se joga sem preparo contra uma presa que tenha capacidade de contra-atacar o cálculo do risco começa a ser feito e eventualmente pode indicar ao ente que é melhor esperar ou mesmo que é melhor desistir do que tentar ali, naquele momento, ou contra aquele ser. Isto vale tanto para os que caçam outros animais quanto aos animais que buscam plantas. As vezes ficar em um canto, abrigado é melhor do que se expor a chuva, ao frio ou mesmo a outros caçadores devido a alguma característica que o instinto ensina a evitar.

    O custo e o risco da inação

    O risco da ação não pode ser calculado apenas visando o custo puro e simples. Há também o custo e o risco da inação. As vezes aguardar mais um dia com fome é uma opção!

    O ponto aqui é que existe quase sempre, ao menos 2 possibilidades que envolve ficar onde se está sem nada fazer ou ir em frente e tentar conquistar algo correndo assim um risco maior para fins de obter também uma recompensa maior.

    Motivação

    No que tange várias ações possíveis, a maior parte dos animais, cada um a seu jeito e dentro de suas limitações farão os “cálculos” para identificar a melhor ação para o dado momento e circunstância. Isto não significa que eles estão sendo racionais e nem que tem ciência de tudo o que envolve cada passo que eles mesmos dão. Apenas que, dentro daquilo que lhes é possível compreender e assimilar, dados também suas limitações pessoais e de própria natureza a tendência maior é que “escutem seus instintos” e atuem de acordo.

    Assim sendo, é esperado que, embora incomum, a maioria das ações vise aumentar seus ganhos diminuindo seus custos, riscos ou ambos.

    Quanto maior o ganho aparente versus custo e risco conhecido, maior tenderá a ser a Motivação que lhes fará agir.

  • Occasus II – Homines

    Como dito anteriormente, pouco se pode afirmar sobre a Realidade e mesmo todos os conceitos que nos norteiam e que acreditamos serem importantes podem ser apenas concepções vazias e não necessárias.

    Verdade, justiça, o bem, a beleza, a liberdade, a razão e qualquer outro conceito abstrato são em última instância apenas ideias que não encontram fundamento sólido o suficiente para afirmar que existem per se.

    A vida não necessita de verdade nem de justiça, nem do bem, nem da beleza e tão pouco da liberdade ou da razão para se manter. E nós, Sapiens, enquanto Animais que somos, também não precisamos de nada disso para simplesmente sobreviver.

    No entanto, notei ao longo dos anos que embora eu não possa afirmar que estes conceitos existam per se, eles estão presentes em nossas vidas Humanas e seu reconhecimento está entre as características que nos distingue dos demais Animais.

    E o que somos?

    Não posso falar pelas demais espécies mas ao menos no que tange a nossa me é permitido afirmar que não somos comuns e, seja pelo motivo que for, desejamos mais que apenas sobreviver. Ou, talvez, todos desejam mas nós definitivamente conseguimos!

    Seria uma presunção grande da minha parte tentar definir de forma definitiva o que é um ser Humano. Ao mesmo tempo, seria também covardia me eximir de qualquer definição então, para estar em conformidade com questões que me são importantes, serei presunçosa e vou expor uma definição dentro do qual, ao longo das demais postagens vou tentar cercar, limitar e defender como forma de demonstrar ao menos que, se tal visão não é a melhor, ao menos se presta para fazer leituras válidas daquilo que não pode ser negado.

    O ser Humano é um Animal gregário que, dotados de uma capacidade cognitiva especialmente acima da média, cria e aperfeiçoa ferramentas e habilidades de cooperação.
    Tem personalidade individualizada e vontade própria e, por uma série de mecanismos sociais visa, tanto quanto possível, alinhar suas necessidades pessoais com as necessidades do grupo ao qual está convivendo naquele momento.

    O individuo e o grupo

    Na nossa espécie, a percepção de Ser não nos permite confundirnos com os demais. Temos de forma inata a percepção de que cada um de nós não é o outro e, na maior parte das ocorrências, agimos de forma auto-orientada em busca de beneficio próprio e independente. Podemos dizer que cada indivíduo de nossa espécie é um ser dotado de autoidentificação e vontade própria.

    Nossa individualidade e capacidade de tomar decisões que divergem dos demais e ainda, tomar decisões em detrimento dos demais faz com que não seja possível em nossa espécie algo como uma Cooperação automática como vemos em seres como abelhas, formigas e demais espécies que vivem em Estrito Coletivo. Ainda assim, conseguimos nos organizar de forma a – na maior parte do tempo – cooperar voluntariamente uns com os outros para obter as vantagens da união de capacidades individuais para benefício dos envolvidos no grupo.